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“Dificuldades de comunicação (pelo não domínio da língua), menor sensibilidade e competência para lidar com a diversidade cultural das pacientes bem como a exibição de atitudes discriminatórias” são alguns dos comportamentos detectados nos profissionais que, ainda assim, “tentam fazer o melhor no auxílio a essas mulheres”[/caption]
O sentimento da sujeição a “tratamentos desiguais e opressores” leva as imigrantes em Portugal a apenas recorrerem aos cuidados de saúde materno-infantis em situações extremas, com a agravante de regularmente encontrarem profissionais “impreparados” para as suas especificidades.
Esta conclusão extrai-se de dois estudos da investigadora do Porto Joana Topa, um sobre “Cuidados de Saúde Materno-infantis à População Imigrante residente em Portugal” (junto de imigrantes brasileiras, cabo-verdianas e ucranianas) e um segundo sobre “O outro lado do cenário: discursos, perspectivas e vivências de profissionais de saúde” (analisando ambos os lados durante o período de gravidez, parto e puerpério).
“Apesar do seu descontentamento com a situação, revelam conformismo e silêncio. Esta cumplicidade acarreta, inevitavelmente, perigos. Perpetua uma não-efectivação dos seus direitos e não informa as instituições e políticas de saúde sobre as suas vulnerabilidades e dificuldades específicas”, explica a psicóloga Joana Topa, realçando, no entanto, a “avaliação geral positiva” feita aos serviços.
A investigadora conta que nos primeiros contactos “são muitas as barreiras conjunturais que limitam as suas escolhas e oportunidades, não só de acesso, como de frequência dos serviços”, lamentando ainda a “clara falta de informação sobre os direitos das imigrantes grávidas no acesso e frequência do SNS”.
Nos estudos são apontadas barreiras como a falta de médicos de família, problemas de comunicação entre o profissional e as pacientes, burocracias, insuficiência informativa ou a não-acessibilidade a serviços específicos como aulas de preparação para o parto ou cheque dentista.
“Dificuldades de comunicação (pelo não domínio da língua), menor sensibilidade e competência para lidar com a diversidade cultural das pacientes bem como a exibição de atitudes discriminatórias” são alguns dos comportamentos detectados nos profissionais que, ainda assim, “tentam fazer o melhor no auxílio a essas mulheres”.
Sob o efeito de “estereótipos generalizados”, Joana Topa deparou-se com situações de “exercício do poder assente em sexismo, classicismo e etnocentrismo”, mesmo que “não intencional”.
De acordo com a psicóloga e docente no Ensino Superior, geralmente estes profissionais partilham das crenças sociais de que “a comunidade imigrante é associada à insegurança, desemprego e perda de valores, como se a condição migratória constituísse uma ameaça à convivência e à coesão social”.
“A desigual base hierárquica de poder influencia os discursos de ambas as partes”, sublinha, sendo que as imigrantes se deparam com discursos em forma de “diapositivos disciplinares, disciplinantes e normalizantes”.
Perante um país envelhecido e face ao contributo destas mulheres para o crescimento demográfico, a investigadora enfatiza a “necessidade dos serviços/profissionais/legislação de saúde utilizarem uma matriz analítica que tenha em conta as diferentes categorias identitárias das pacientes, uma vez que estas propiciam necessidades diferenciadas bem como vivências díspares”.
O número de mulheres a viver a maternidade em contexto multicultural e migratório é uma realidade com uma expressão internacionalmente crescente.
JM/Lusa
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