Interesses económicos e falta de médicos justificam o elevado número de cesarianas realizadas em Portugal
DATA
25/02/2014 15:06:27
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Jornal Médico
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Interesses económicos e falta de médicos justificam o elevado número de cesarianas realizadas em Portugal

cesarianaOs interesses económicos do sector da saúde justificam em grande parte o aumento generalizado do número de partos por cesariana, realizados nos últimos anos em Portugal. A conclusão é de um estudo realizado por investigadores do Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro (UA) que aponta, igualmente, que o elevado número de cesarianas, efectuado no serviço público de saúde se deve ao facto dos hospitais não terem profissionais suficientes “para que haja tranquilidade” na hora de decidir entre um parto natural e um por cesariana. Perante o cansaço causado por turnos prolongados e na presença de trabalhos de partos morosos, a decisão pela cesariana tende a ser tomada para evitar a vigília médica durante a madrugada. Só entre 1999 e 2009, segundo a OCDE, o número de cesarianas por cada 100 nados-vivos realizadas em hospitais públicos e privados portugueses aumentou em cerca de 70 por cento.

[caption id="attachment_7196" align="alignleft" width="300"]Aida Tavares “Uma das justificações para este excesso de cesarianas está no problema de informação assimétrica que caracteriza o sector da saúde”, explica Aida Isabel Tavares. “Os médicos são agentes económicos com mais informação do que os pacientes e podem induzi-los a realizar mais consultas, mais exames de diagnóstico ou mais tratamentos do que o necessário para que possam atingir os seus objectivos pessoais”[/caption]

Um constrangimento que acarreta custos elevados. “Uma cesariana custa, em média, o dobro de um parto normal”, aponta Aida Isabel Tavares, investigadora do Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial (DEGEI) e autora do trabalho realizado com Tânia Rocha. “Se o parto for por cesariana, a mãe e o recém-nascido têm que ficar mais dias no hospital do que se fosse um parto normal, o que significa que tem um custo acrescido por cada dia suplementar no hospital”, diz a responsável que aponta que a alta do parto normal é dada no segundo dia e no parto por cesariana, “se tudo correr bem “, é no terceiro.

“Uma das justificações para este excesso de cesarianas está no problema de informação assimétrica que caracteriza o sector da saúde”, explica Aida Isabel Tavares. “Os médicos são agentes económicos com mais informação do que os pacientes e podem induzi-los a realizar mais consultas, mais exames de diagnóstico ou mais tratamentos do que o necessário para que possam atingir os seus objectivos pessoais”. Estamos perante uma situação de procura induzida, que neste caso leva as parturientes a decidir realizar cesarianas, diz.

No sector privado, a remuneração de um médico obstetra é composta por uma componente fixa e outra variável que depende do número de consultas ou de intervenções realizadas pelo médico. Assim, “poderá acontecer que haja incentivos para que os obstetras procurem induzir as grávidas a fazer uma cirurgia [cesariana] e a realizar mais consultas”. Uma situação que significa mais benefícios económicos, quer para o hospital, quer para o obstetra.

Sector público sem tranquilidade para decidir

Já no sector público, apontam as investigadoras, os médicos ganham uma remuneração fixa, independentemente das consultas ou das cirurgias efectuadas. Assim, a preferência pela cesariana em detrimento do parto natural não se deve a questões económicas mas organizacionais. A opção pela cirurgia deve-se ao facto de “os hospitais não terem profissionais suficientes para que haja tranquilidade na tomada da decisão mais apropriada” e porque “há equipas a fazer turnos de muitas horas e muitas cesarianas são decididas na sequência de trabalhos de parto prolongados, no momento do cansaço e antes de entrar pela madrugada adentro”.

As mais de 27 mil cesarianas registadas em Portugal em 1999, distribuídas pelos sectores público e privado, aumentaram para mais de 34 mil em 2009. A tendência de crescimento mantem-se até hoje. Em 2010 o país registou uma taxa de cesarianas de cerca de 36 por cento (por 100 nados-vivos). Um valor muito acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde que aponta para que a taxa não deva ultrapassar os 15 por cento, tendo em conta os riscos acrescidos para a saúde de mães e recém-nascidos.

 

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Editorial | Luís Monteiro, membro da Direção Nacional da APMGF
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