O número de casos de automutilação em jovens está a aumentar em Portugal. O alerta é do pedopsiquiatra Fernando Santos, que defendeu hoje a necessidade de os profissionais de saúde estarem atentos aos seus sinais, mesmo quando não forem a principal razão da consulta.
O problema vai ser debatido amanhã numa conferência organizada pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (CADIn) dedicada ao tema “Adolescência e Transição para a Vida Adulta” e surge dois dias após ter sido divulgado, em Inglaterra, um estudo sobre o comportamento de jovens em idade escolar cujos resultados mostram que cerca de 20% dos jovens com 15 anos de idade inquiridos sobre experiências vivenciadas, confessaram que se haviam ferido intencionalmente, pelo menos uma vez, no ano anterior. O estudo, realizado pela Organização Mundial de Saúde, envolve 6 mil jovens ingleses com 11, 13 e 15 anos de idade e estará concluído até ao final do ano.
De acordo com os resultados já conhecidos, a automutilação pode incluir mordedura, queimaduras e cortes infligidos principalmente nos braços, pernas e abdómen.
Em declarações ao The Guardion, Fiona Brooks, Directora do Departamento de Saúde da criança e do Adolescente da Universidade de Hertfordshire, que liderou a investigação revelou que “os resultados já obtidos são muito preocupantes e mostram que o problema é consideravelmente mais relevante entre as raparigas. Aos 11 anos, rapazes e raparigas relatam um bom nível de bem-estar emocional. Todavia, na população com 15 anos de idade, a diferença aumentou, com 45% das raparigas a referirem que, em média, se sentem «em baixo», uma vez por semana. Nos rapazes, essa percentagem foi de 23%”.
Segundo a investigadora britânica, “factores como o stress em casa, a pressão para obter boas notas escolares e a falta de uma garantia de emprego no final de tudo isso podem contribuir para a má saúde mental registada”. A automutilação, aponta Fiona Brooks, funciona como estratégia de gestão do stress no curto prazo."
A investigação cujos resultados preliminares foram agora divulgados assume especial relevância uma vez que se trata do segundo estudo realizado em Inglaterra após 2002, ano em que foi levado a cabo um primeiro trabalho de investigação. E também porque se trata das primeiras investigações realizadas a nível mundial sobre um tema que, tudo indica, é transversal à maioria dos países desenvolvidos.
De facto, revela Fernando Santos, em Portugal têm aumentado as queixas e consultas resultantes desta prática que em algumas situações pode mesmo colocar em risco a vida dos jovens.
Os antebraços, as coxas e o abdómen são os locais em que os jovens e adolescentes mais se cortam, por serem “sítios que, embora se fácil acesso, se podem esconder e tapar”.
O especialista sublinhou que estes sítios criam características que podem funcionar como sinais indicadores, tais como a roupa que tapa o corpo, mesmo no verão, e a recusa em ir à praia. Segundo Fernando Santos, a automutilação é “um ato solitário, embora estejam descritas situações potenciadas por grupos”. De uma maneira geral, adiantou, o recurso à automutilação visa lidar com situações que os jovens atravessam: ansiedades, frustrações, grandes instabilidades. “A pessoa corta-se para canalizar o pensamento para a dor física, pois nessa altura o desconforto emocional desaparece”, disse. O pedopsiquiatra sublinha que quem se auto mutila tem “determinadas características em termos emocionais”, sendo habitualmente pessoas com tendência para o isolamento”.
Sobre as razões para o aumento de jovens que recorrem a esta prática, o especialista disse não ser possível associar, para já, à crise, pelo menos de uma forma directa.
“Indirectamente há mais instabilidade a nível familiar, existe mais instabilidade na sociedade. Mas a pessoa precisa de ter determinadas características para ter esse comportamento, independentemente desse estímulo que possa haver na sociedade”.
O especialista defende uma especial atenção para os quadros de automutilação, mesmo que esta não seja a principal razão da consulta.
“Devemos incluir uma pesquisa dessa situação para saber se há alguma coisa que indicie esta prática”,
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