Augusto José Pepe Cardoso: saúde sexual - desmistificar o tabu

Pepe Cardoso - Congresso Urosexopatia Neurogenica

No âmbito do dia Europeu da Disfunção erétil, que se assinala hoje, a Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução (SPA) está a realizar algumas ações de informação e de sensibilização para um problema que se estima afete, em termos globais, 10% dos homens portugueses… Com 52% dos casos na faixa etária dos 40 aos 70 anos de idade. Em entrevista ao nosso jornal, Augusto José Pepe Cardoso, presidente da SPA, fala de um problema que ainda é “tabu” para a maioria, mas que se identificado é tratável na maioria das situações, possibilitando uma vida sexual saudável, com reflexos positivos em várias dimensões, incluindo a económica… É que está hoje provado que um indivíduo saudável – conceito onde se inclui a saúde sexual – é mais produtivo e contribui para um melhor ambiente relacional, a todos os níveis.

Não existem dados oficiais da prevalência da doença, “os dados que temos sustentam-se no estudo Episex-PT, realizado há alguns anos pela SPA e em estudos posteriores realizados a nível europeu e apontam para uma prevalência global de disfunções sexuais de cerca de 24,9% da população. Estas disfunções distribuem-se pela disfunção de desejo, que representa cerca de 15% dos casos; de ejaculação, que afeta cerca de 30%, sendo a disfunção mais prevalente; do orgasmo, entre 2 e 3% e a disfunção erétil, que afeta cerca de 13%. Relativamente a esta, sabemos que na faixa etária dos 40 aos 70 anos atinge cerca de 52% da população, o que é muito. E se desdobramos esta faixa etária em faixas de dez anos, vemos que na população com entre 40 e 49 anos de idade o problema atinge 29% dos homens, entre os 50 e os 59 anos, afeta 50% e entre os 60 e os 69 anos, 74%.

Pesem os avanços no tratamento e as campanhas de sensibilização, em Portugal “disfunção erétil” ainda é tema tabu. Uma realidade difícil de ultrapassar, confessa ao nosso jornal Pepe Cardoso “vamos tentando alterar essa mentalidade com campanhas de rua, nas farmácias, Centros de Saúde e através dos media… Nos quais passamos a mensagem de que este problema tem solução, se se for à procura dela. Uma ressalva importante já que a maioria das pessoas não procura ajuda junto do seu médico, seja ele o seu médico de família, seja nas consultas dirigidas, de andrologia ou de urologia.

Normalmente a pessoa afetada evita expor-se, procurando informação na internet onde encontra de tudo, do melhor ao pior… Inclusive medicamentos à venda, na maioria dos casos falsificados e que podem pôr em risco a sua saúde. Em todo o caso importa dizer que pese a persistência do “tabu”, o número de homens que recorre a consultas especializadas tem vindo a aumentar”.

Tema “tabu”, também, para os médicos que nas consultas muito raramente o abordam como o demonstram os resultados do Global Study of Sexual Attitudes and Behaviours. O porquê de ser assim, não é certo. Mas existem pistas que permitem explicar a lacuna:“pensamos que o primeiro contacto pode ser feito pelo médico de família, que segue o doente e a sua família. Mas para que isso aconteça o médico tem de ter tempo, para além do que necessita para o acompanhamento da história clínica do doente. Tempo que lhe permita acrescentar às muitas questões que tem de colocar na consulta, a de como está a saúde sexual daquele utente. E é aqui que as coisas falham: o médico tem o seu tempo de consulta espartilhado por números, indicadores, consultas por dia. Uma limitação para a qual o próprio problema contribui, já que a sua abordagem facilmente ocupa, por si só, o tempo de uma consulta”, justifica Pepe Cardoso.

Disfunção erétil como marcador de doença cardiovascular

De acordo com os estudos disponíveis, a disfunção erétil é um importante marcador de doença cardiovascular “são vários os estudos que têm demonstrado que constitui um marcador daquela; que um doente que tem uma disfunção erétil é um doente que no espaço de entre um e três anos irá ter, provavelmente, um evento cardiovascular; um enfarte ou manifestações de uma cardiopatia isquémica, por exemplo”, alerta Pepe Cardoso. Para o especialista, “tendo em conta esta constatação, todo o doente ao qual for identificada uma disfunção erétil, deve ser avaliado quanto ao risco cardíaco. Existem algoritmos próprios, particularmente o de 2nd Princeton consensus conference, utilizados na avaliação específica do risco cardiovascular associado à terapêutica da disfunção erétil. É extremamente importante que sejam aplicados, já que permitem identificar doenças cardíacas ainda em fase “insipiente” e assim tratá-las precocemente prevenindo a progressão para estádios mais graves.

Arsenal terapêutico… Ajustável a cada doente

“Ao nível das terapêuticas, no tratamento de primeira linha mantêm-se as orais com os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (iPDE5), recomendados pelas guidelines da Associação Europeia de Urologia (EAU, na sigla inglesa). Neste grupo dispomos hoje de quatro medicamentos, que nos permitem ajustar a terapêutica ao perfil de cada doente. Temos iPDE5 de toma diária, portanto desfasada do ato em si, e de toma on demand. Nestes, temos os de ação muito rápida, em que a toma ocorre pouco antes da relação, e outros cuja toma deve ocorrer cerca de uma hora antes da relação e desfasados de refeições. Neste grupo, temos ainda iPDE5 que mantêm atividade prolongada e outros por um período de tempo mais curto. Em síntese, uma variedade que permite uma escolha ajustada a cada doente” aponta o presidente da SPA.

Classificação das disfunções eréteis

Disfunção erétil psicogénica (25% dos casos)

Disfunção erétil orgânica (25% dos casos)

Vascular - arterial ou veno-oclusiva;

Hormonal - hiperprolactinemia, hipogonadismo, hipo/hipertireoidismo e diabetes…

Neurogénica – resultantes de doenças neurológicas, traumatismos ou lesões…

Iatrogénica – em resultado da toma de medicamentos,  como anti-hipertensivos, antidepressivos, antipsicóticos, antiandrogénios e a própria cirurgia radical por neoplasia da bexiga, da próstata, do reto, entre outras.

Disfunção erétil mista (45% dos casos  – onde se “fundem” as demais)

Disfunção erétil de causa desconhecida (que representam 5% do total)

 

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Editorial | Luís Monteiro, membro da Direção Nacional da APMGF
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