Há 13 anos, quando tudo começou, ninguém acreditava que o grupo de jovens empresários que se atrevera a adquirir a unidade fabril que a Bayer ia encerrar em Coimbra, pudesse vingar num negócio que a nível mundial estava a ser deslocalizado para países como a China e a Índia. Muito menos, que à actividade fabril associassem uma forte componente de investigação e desenvolvimento… dos processos à biotecnologia. Estavam todos enganados! Não só venceram, como transformaram uma estrutura de negócio que no início era apenas fabril numa empresa de investigação, cujo primeiro produto entrou há dias na fase de ensaios clínicos. Hoje, exportam para os quatro cantos do mundo, dos EUA à Malásia, aumentando todos os anos o número de colaboradores… em contraciclo com a economia. Paulo Barradas Rebelo, um dos “aventureiros” e actual presidente do conselho de administração relatou ao nosso jornal a história que é de sucesso… da Bluepharma
Jornal Médico – A ideia da criação da Bluepharma nasceu há pouco mais de 13 anos, com uma má notícia. Conte-nos um pouco dessa história…
Paulo Barradas Rebelo – Estávamos em 2001 e a Bayer tinha anunciado a sua decisão de alienar a unidade fabril de Coimbra, uma das mais avançadas do país, interrompendo deste modo um ciclo de três décadas de actividade industrial em Portugal. Isto aconteceu num momento em que a Estratégia de Lisboa [assinada em Março de 2000], de converter a economia da União Europeia na economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, estava bem presente no espírito de todos. Inconformados com a decisão, que representava um retrocesso relativamente aos progressos registados na década de 1970, ao longo da qual Portugal tinha conseguido atrair as multinacionais farmacêuticas para investirem no sector industrial, eu e outros quatro amigos [Maria Isolina Mesquita, Sérgio Simões, Miguel Silvestre e Paulo Fonseca], todos ligados ao sector do medicamento, decidimos que era preciso impedir que a unidade de Coimbra encerrasse. A fábrica ia ser vendida? Pois bem… decidimos comprá-la!
Foi um negócio difícil…
Foi! Foram nove meses de negociações, com cerca de 100 empresas internacionais interessadas, à partida, no negócio… E apenas uma nacional. Chegámos à fase final de selecção com outros dois candidatos.
Mas tinham um apoio de peso… não é verdade?
De facto. E daí costumarmos dizer que a Bluepharma é um projecto de todos os portugueses; uma empresa verdadeiramente nacional. Isto porque um dos sócios “fundadores” foi o próprio Estado Português, através da capital de risco, PME Capital, que nos acompanhou de 2001 até ao término do contrato, em 2006.
E venceram!
A Bayer sempre revelou preocupação em saber o que os interessados pretendiam, de facto, fazer com a fábrica. Vivíamos um período “quente” de especulação imobiliária e a empresa temia que o destino da unidade fosse a demolição e o aproveitamento dos terrenos para construção civil. O nosso projecto era outro. Queríamos apostar em inovação, acrescentar conhecimento e dinamismo ao que na altura era apenas um centro de produção industrial; desenvolver um projecto tecnológico que constituísse uma mais-valia para Coimbra e para o país.
Foi um projecto de “alto risco”…
Ficou acordado que a Bayer absorveria a produção por um período de três anos. Era pois um contrato de alto risco, dada a sua curta duração e as barreiras existentes neste sector de actividade. Na altura, a fábrica produzia 34 produtos diferentes, essencialmente para o mercado nacional. Findo aquele prazo teríamos que garantir a continuidade da produção… agora, já sem a Bayer.
Qual era a vossa aposta?
Sabíamos fazer! Agora era preciso ir para fora e alavancar essa capacidade existente com uma aposta firme na investigação e desenvolvimento (I&D).
Que integra a vossa estratégia dos três “i”…
Investir para inovar e inovar para internacionalizar. Desde o primeiro dia que acreditámos que era esse o caminho.
Uma estratégia que seria implementada desde o início.
Em 2003, ainda na vigência do acordo com a Bayer criámos o departamento de I&D, focado – ontem como hoje – essencialmente, na investigação e desenvolvimento.
Em 2005 sai a Bayer e a Bluepharma conseguiu vingar sozinha… Como foi?
Logo nesse ano lançámos três produtos que marcaram – dois deles ainda marcam – a nossa estratégia. Em Maio avançámos com o lamotrigine, indicado no tratamento da epilepsia. Foi um desafio muito interessante ainda que dificílimo de concretizar, uma vez que nos era pedido que no mesmo dia em que expirava a patente da molécula fornecêssemos o produto para clientes de 14 países diferentes. Logo a seguir lançámos um antigripal, que foi notícia pelo facto de termos produzido, nesse ano, 60 milhões de comprimidos para 60 milhões de franceses… E em Setembro foi a vez da sertralina, indicada no tratamento da depressão, também para França.
Sem nunca perder de vista a investigação.
Desde o primeiro dia que na estratégia delineada soubemos separar o “i” (investigação) do “d” (desenvolvimento). Ou seja, nunca perdendo de vista a vertente da investigação, apostámos forte no desenvolvimento como forma de sustentar a componente industrial, que nos permite hoje produzir uma vasta gama de medicamentos genéricos, outros dos pilares estratégicos da empresa.
Poderíamos ter seguido o caminho mais fácil, que era o de conquistar produções a empresas concorrentes, numa lógica de menor preço. Não era essa, todavia, a nossa visão de futuro: queríamos diferenciar pelo desenvolvimento de novos produtos, captando novos clientes através do licenciamento de tecnologias. Em suma, na investigação focamos em moléculas ou tecnologias inovadoras e disruptivas, enquanto no desenvolvimento focamos no desenvolvimento de medicamentos e de processos.
E foram bem-sucedidos!
O nosso principal negócio é o licenciamento de tecnologias a empresas de todo o mundo que depois fidelizamos à nossa unidade industrial. Ou seja, vendemos conhecimento para em seguida vendermos produção industrial.
Hoje, a Bluepharma é vista na Europa – e no mundo – como uma empresa forte ao nível do desenvolvimento farmacêutico, tendo acoplada uma componente industrial.
As empresas licenciadas são “obrigadas” a produzir em Portugal?
Sim. Por um período de três a cinco anos… que acaba por se prolongar no tempo, uma vez que oferecemos os mais elevados padrões de qualidade, ao melhor preço.
Referiu atrás a vertente de produção e comercialização de medicamentos genéricos, como uma das apostas estratégicas da Bluepharma…
É uma aposta de sempre, que traduz a responsabilidade social assumida desde o início de disponibilizar medicamentos de grande qualidade a baixo custo, contribuindo deste modo para a sustentabilidade do sistema. Por outro lado, é no processo de produção de genéricos que são formadas as equipas que asseguram mais tarde os processos de inovação. Só inova quem faz!
Uma perspectiva que tem vindo a perder adeptos. Manda-se fazer fora o que se inventa cá dentro…
Esse foi, porventura, o maior erro da Europa. Pensar que não precisava da indústria; que a produção era coisa para se fazer na Índia ou na China. Na minha opinião, uma Europa que não produz é uma Europa que é incapaz de inovar.

Na prossecução da vossa estratégia, a ligação à universidade é fundamental…
Uma das nossas primeiras iniciativas, levada a cabo logo em 2001, foi a da instituição do Prémio Bluepharma/Universidade de Coimbra, que não é mais do que um “chapéu” para um conjunto de actividades que desenvolvemos em conjunto com a Universidade.
Curiosamente, a nossa primeira participação numa “spin-off” nasceu em Lisboa, no Instituto de Medicina Molecular. Foi em 2005, com a criação da Technophage, uma empresa de prestação de serviços e actividades de I&D de biotecnologia, onde ainda hoje detemos uma pequena participação no capital social.
Esta participação foi estratégica. O estímulo ao empreendedorismo nacional deu-nos visibilidade e tem contribuído para reter talentos em Portugal.
Mas, biotecnologia… Não é uma área, digamos assim, um bocadinho “fora de portas” do “edifício” Bluepharma?
De modo algum! A participação na Technophage reflecte bem a nossa convicção de que é possível “fazer”. A Bluepharma está hoje nos extremos da cadeia: ganha dinheiro com a produção e venda de medicamentos genéricos que depois é investido em áreas tão especializadas como a da biotecnologia. Além disso temos uma proximidade quase umbilical com o Biocant, a maior incubadora de biotecnologia em Portugal.
É nesse universo que se inserem empresas como a Luzitin, que nos últimos dias foi notícia, pelas melhores razões.
É verdade! O que para nós foi motivo de grande orgulho. Sentimos ter cumprido mais uma etapa da estratégia que fixámos há mais de treze anos… que todos apontavam como “impossível”.
O que vos diziam então?
Que era uma loucura fazer indústria na Europa quando toda a gente estava a apostar na Índia e na China. E a “segunda loucura”… que o íamos fazer com uma componente de I&D…
E vocês, irredutíveis…
Já naquela altura estávamos convencidos de que o modelo de desenvolvimento económico que estava a ser seguido em Portugal e no resto da Europa, não tinha futuro. Que era impossível manter uma economia que gastava sistematicamente mais do que produzia. Por outro lado, era também nossa convicção que a I&D não seria por muito mais tempo uma área a que apenas podiam aceder as grandes multinacionais; que havia nichos de mercado, oportunidades que pequenas empresas como a Bluepharma poderiam aproveitar.
O tempo veio mostrar que estávamos certos em toda a linha; que tínhamos conseguido antecipar a mudança.
Era apenas convicção ou havia sinais de que seria mesmo assim?
Antes de avançarmos estudámos o mercado para perceber como funcionava, quem eram os intervenientes e quais as oportunidades. Logo em 2005 visitei a Bio, em Filadélfia, onde me deparei com cerca 1.700 empresas.
Fiquei surpreendido com o número. Estavam lá as duas dezenas de grandes multinacionais que todos conhecemos, mais as novas empresas de biotecnologia que de um momento para o outro se tinham convertido em gigantes da indústria, empregando milhares de pessoas, como a Genzyme ou a Amgen… E depois havia as outras mil seiscentas e tal, das quais eu nunca tinha ouvido falar.
A pergunta imediata foi... Quem era aquela gente? Rapidamente constatei que na sua grande maioria eram “spin-off” lideradas por professores universitários, financiados por programas públicos de apoio à investigação! De todos os continentes!... Quase todas mais pequenas que a Bluepharma. Empresas que desenvolveram tecnologias inovadoras que procuravam vender às grandes multinacionais.
O LUZ11 é mais uma prova de que estavam no caminho certo.
O LUZ11 foi descoberto por um grupo de investigadores do universo de investigação de excelência que temos em Coimbra, que associa duas áreas da ciência: a química e a física. Trata-se de um composto fotossensibilizador com efeitos comprovados no modelo animal para o tratamento do cancro por terapia fotodinâmica. O produto é introduzido nas zonas afectadas e “activado” por feixes de luz com um determinado comprimento de onda, conduzindo à morte, as células cancerígenas.
Em que fase de desenvolvimento é que se encontra neste momento?
Já iniciámos ensaios clínicos em colaboração com o Hospital da CUF, no Porto, em doentes com cancro avançado da cabeça e pescoço, com o objectivo de determinar a segurança mas também a eficácia do medicamento. Concluídos os ensaios clínicos de fase I/IIa, teremos que optar entre iniciar uma nova fase de investimento ou licenciar o produto a uma multinacional com capacidade para concluir o processo e introduzir o produto no mercado.
Uma conquista ímpar!
Este terá sido, certamente, o passo mais importante que demos nos treze anos de existência da Bluepharma. Se tudo correr como o previsto, a nova tecnologia poderá ser utilizada em todos os tipos de cancro situados em regiões acessíveis à terapia fotodinâmica.
Mas o universo Bluepharma é mais vasto e inclui outras “spin-off”. Em que áreas?
Somos uma empresa de parcerias! Para além da Technophage e da Luzitin, participamos também no capital da TREAT U, fundada em Janeiro de 2010, que desenvolve projectos na área das plataformas nanotecnológicas de transporte de terapias dirigidas a alvos específicos, particularmente no tratamento do cancro da mama. Neste momento estamos a realizar ensaios in vivo.
Outra das empresas em que estamos envolvidos é a BSIM2, formada por investigadores de Coimbra doutorados fora do país, focada na identificação, através da análise informática de bases de dados, de compostos bioactivos com potencial para um determinado alvo terapêutico.
Estamos também ligados à Blueclinical, uma empresa sediada no Hospital da Prelada, vocacionada para a investigação clínica, que vem estimular esta área de investigação em que Portugal ainda está muito distante da média europeia.
Outra das “marcas” da empresa, em contraciclo com a economia, é a da criação de emprego.
Só em 2012 – um ano de grande crise – integrámos 108 novos colaboradores.
Quantos são ao todo, actualmente?
Dos 58 colaboradores que “herdámos” da Bayer, passámos para um universo de 400, nas dez empresas que criámos ao longo destes treze anos de existência. Só na Bluepharma Indústria somos cerca de 300 pessoas.
Retomando um dos “i” estratégicos, o da internacionalização, pode-se afirmar que a Bluepharma tem ultrapassado obstáculos difíceis, como o da certificação internacional.
Em 2009 obtivemos a certificação do regulador norte-americano, a Food and Drug Administration (FDA), para formas farmacêuticas sólidas não estéreis. Fomos a primeira empresa portuguesa a consegui-lo, o que constituiu um marco da maior importância porque nos abriu as portas ao mercado global.
Mercado global, onde desde o início planeavam entrar.
Quando iniciámos o “projecto Bluepharma”, em 2001, fomos à maior feira mundial do sector farmacêutico, a CPhI, que nesse ano se realizou em Londres, e constatámos que entre os milhares de expositores não havia uma só empresa farmacêutica portuguesa como a nossa; de formulação farmacêutica. Havia apenas uma, especializada em química fina.
Lembro-me de na altura ter pensado: “quem não está nesta feira… não existe!”.
O mesmo se pode afirmar relativamente à certificação pela FDA. Quem a tem, existe à escala global… Quem não a tem, não.
Mas em termos de negócio, o mercado norte-americano não era importante. Pelo menos nos primeiros anos.
É verdade. Mas o facto de estarmos certificados era por si só uma garantia de qualidade; um “efeito colateral”, por assim dizer, que nos abria as portas de muitos outros mercados.
E hoje, os EUA são um mercado apetecível?
Estamos neste momento a entrar com alguma força e contamos que dentro de cinco anos se torne, mesmo, o nosso principal mercado.
Foi a aposta na internacionalização que determinou o nome da empresa…
Bluepharma reflecte o azul planetário, o global. Ao mesmo tempo que simboliza a água que se traduz no ideal da transparência dos processos.
No ano passado as exportações representaram mais de 80% da nossa facturação global. Exportamos para quase todos os países europeus, para os EUA, Austrália, Vietname… África, Médio Oriente, América Latina…
Em 2009, ano em que decidem expandir a actividade… O mundo entra em crise… Foram afectados?
Fomos e muito. No preço dos genéricos, que em quatro anos registou uma redução de cerca de 70%. E também nas vertentes regulamentar e ambiental, cada vez mais exigentes e dispendiosas.
Intimidou-os?
De modo algum. Somos, como o temos demonstrado desde a primeira hora, pessoas que não se deixam intimidar com as dificuldades de cada momento.
É evidente que a actual situação económica teve impacto no ritmo de crescimento que tínhamos planeado. Não fosse a crise e hoje poderíamos ter já mais fábricas, por exemplo. Mas o nosso pensamento projecta-se no futuro, na estratégia que definimos, certos de que para lá chegarmos teremos que enfrentar e vencer, como até aqui, muitos obstáculos.
Cronologia
2001 – Fundação da Bluepharma
Aquisição da unidade fabril da Bayer, em Coimbra
58 Colaboradores
2002 - Constituição da Bluepharma Genéricos
60 Colaboradores
2003 - Criação do centro de I&D
Certificação ISO 9001, 14001, OHSAS 18001 e EMAS
65 Colaboradores
2004 - Projecto X-Prot
Prémio Europeu de Inovação Regional
78 Colaboradores
2005 - Integração na rede COTEC - Associação Empresarial para a Inovação
84 Colaboradores
2006 - Aquisição de participação na Technophage
99 Colaboradores
2007 - Formação em Lean 6 Sigma
Upgrade ao ERP SAP
105 Colaboradores
2008 - Entrada da Capital de Risco InovCapital
Lançamento 1.º medicamento desenvolvido na empresa
119 Colaboradores
2009 - Certificação, pela Food and Drug Administration (FDA), para formas farmacêuticas sólidas não estéreis
134 Colaboradores
2010 - Inauguração das novas instalações da Bluepharma
Ano de arranque da spin-off Luzitin, SA
173 Colaboradores
2011 - Participação na Treat U e Biocant Ventures
PME Excelência 2011
180 Colaboradores
2012 - Participação na Blueclinical e BSIM2
Obtenção da Certificação IDI - NP 4457
Prémio PME Inovação COTEC e Prémio INSEAD
Inauguração da nova plataforma logística em Taveiro
299 Colaboradores
Taxa de Exportação – 81%
2013 - PME farmacêutica que mais investe em I&D face ao seu volume de negócios, de acordo com os últimos resultados do Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico do MCTES
PME Excelência
Venture of the Year Award, atribuído pela Portugal Ventures
Taxa de Exportação – 84%
300 Colaboradores
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