Estomatologistas e médicos de família foram os mais afectados pela crise
DATA
30/06/2015 12:38:28
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Jornal Médico
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Estomatologistas e médicos de família foram os mais afectados pela crise

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As medidas adoptadas pelo Governo na sequência da assinatura do memorando de entendimento celebrado com a troika tiveram impacto no desempenho profissional dos médicos? Uma questão pertinente, para a qual os investigadores do ISCTE-IUL procuraram encontrar respostas no inquérito que enviaram à totalidade dos médicos inscritos na Ordem ao qual responderam 3.183 clínicos, uma amostra onde estão representados médicos de 45 especialidades.

As respostas consubstanciam uma auto-avaliação da vida profissional por antiguidade e natureza do prestador (público ou privado).

A análise das respostas revela desde logo que “os médicos mais novos no sector público tendem a estar mais motivados, satisfeitos e menos exaustos do que os colegas no sector privado”, situação que se inverte à medida que o número de anos de exercício aumenta, tornando-se particularmente acentuada no que se refere à falta de motivação e sensação de exaustão com o trabalho dos médicos que exercem no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Dito de outro modo: o pico da desmotivação e sensação de exaustão é mais elevado entre os jovens médicos que exercem no sector privado e nos médicos com mais tempo de serviço afectos a unidades do SNS.

Outro dos dados que o inquérito do ISCTE-IUL procurou conhecer foi o das dificuldades económicas dos médicos face a 2011.

Neste indicador, foram os médicos a trabalhar em exclusivo no sector privado que mais denunciaram “sentir dificuldades financeiras desde 2011 (21%), sendo claro que a situação de duplo emprego faz baixar esse valor para cerca de 16%”. Ou seja, aponta o relatório, “não obstante a maior satisfação e motivação destes profissionais, é notória uma pior avaliação das condições económicas no sector privado”. Uma situação que assume particular relevância nos consultórios (24%) mas que é menos visível nos hospitais (15,4%).

A análise da situação nos CSP revela situações distintas em função do modelo de unidade em que os médicos exercem a sua actividade. Assim os médicos das unidades de saúde familiar (USF) referem menores dificuldades financeiras (17,3%) do que os seus colegas das unidades de cuidados de saúde personalizados (UCSP), onde as dificuldades financeiras foram referidas por 26% dos inquiridos. Uma diferença que encontra explicação no facto de a remuneração dos médicos de família a exercerem em USF (particularmente do Modelo B) ser sensível – e muito – ao cumprimento de indicadores contratualizados com as ARS, que em muitas situações permite incentivos que mais do que duplicam a retribuição base.

Quando se ordenam as respostas por especialidades, “verifica-se os estomatologistas são claramente os que mais manifestam o aumento das dificuldades económicas face a 2011 (35,3%), seguidos dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (25,1%) e psiquiatras (21,8%)”, informa o relatório. Os que menos razões de queixa têm a apontar são os cardiologistas (7,7%), radiologistas (9,6%) e gastroenterologistas (10,9%).

E emigrar?… Uma situação tantas vezes apontada como justificação para a crescente falta de médicos nos serviços de saúde. É algo que preencha a mente da maioria dos médicos portugueses?

A análise das respostas dos médicos com vínculo público em exclusividade revela que os motivos que os podem levar a emigrar estão relacionados com o aumento das dificuldades económicas e com a falta de satisfação profissional. “A possibilidade de emigrar é superior em 46,5% entre os médicos que sentem dificuldades económicas por comparação aos que não sentem dificuldades económicas, enquanto a possibilidade de emigrar é inferior em 57,4% entre os médicos que se sentem satisfeitos com o trabalho comparativamente aos que não se sentem satisfeitos”, lê-se no relatório.

Os contornos são semelhantes relativamente aos inquiridos a exercer no sector privado: o aumento da possibilidade de emigrar está estatisticamente relacionado com dificuldades económicas e com baixa motivação com o trabalho. Assim, a possibilidade de emigrar é superior em 64,6% entre os médicos que sentem dificuldades económicas por comparação aos que não as sentem, enquanto a possibilidade de emigrar é inferior em 76,8% entre os médicos que se sentem motivados com o trabalho comparativamente aos que não se sentem.

Dos resultados obtidos, os investigadores destacam ser “limitativo pensar na possibilidade de emigração dos médicos como reflexo do desemprego”. Com base nas respostas obtidas através do inquérito, “fica claro que aspectos relacionados com a remuneração mas, mais importante, com a motivação ou a satisfação geral com o trabalho têm um forte poder explicativo na ponderação que os médicos fazem em sair do país”, conclui-se no relatório.

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Editorial | Luís Monteiro, membro da Direção Nacional da APMGF
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